CURIOSIDADES BALONÍSTICAS

O Balonismo desde o início foi marcado por pioneirismo e tentativas de superação de novos recordes. A seguir algumas matérias com esses pioneiros

Um psiquiatra nos céus

Não demorou para que Auguste Piccard percebesse que a tecnologia poderia ser aplicada aos veículos aquáticos. Em 1937, ele projetou uma nova cápsula e batizou-a de "batiscafo Trieste". A idéia era ir o mais fundo possível no oceano. Apesar da vitalidade como inventor e cientista, Auguste não podia aventurar-se sozinho nas jornadas submarinas. Foi aí que entrou em cena seu filho Jacques – então estudante de oceanografia. Juntos, fizeram mais de 100 mergulhos nos anos 40 e 50, desenvolvendo a cápsula e alcançando lugares jamais explorados.

O clímax aconteceu em 1960, quando Jacques atingiu o fundo das Fossas das Marianas, no Oceano Pacífico, o lugar mais profundo de que se tem conhecimento: 10.910 metros abaixo da superfície do oceano. O feito colocou Jacques no rol dos grandes aventureiros do século. E isso aconteceu de um modo bastante prático: foi convidado a trabalhar para a Nasa. "Meu pai tornou-se amigo de muitos dos astronautas do projeto Apollo", afirma Bertrand, que tinha apenas dois anos de idade na época do recorde. Durante a infância, ele assistiu do próprio Cabo Canaveral ao lançamento de seis missões do programa espacial americano. "Tive a sorte de conhecer pessoalmente os heróis da minha geração, e isso me impulsionou em direção à vida que tenho hoje."


1. Combustível
A cápsula era envolvida por 32 cilindros de gás propano, usado para abastecer os queimadores, que esquentavam o ar do balão para fazê-lo subir
2. Cockpit
É onde ficavam os controles dos queimadores. Lá também ficavam os equipamentos de comunicação, essenciais para o contato com a equipe de terra, que informava a altitude dos melhores ventos
3. Cápsula
Com 5 metros de comprimento, era pressurizada e mantida a 15 ºC, pois a temperatura exterior chegava a 56 ºC negativos. Detalhe: existia apenas uma cama

Seguindo a trilha do pai e do avô, que nunca deixaram a ciência de lado, Bertrand doutorou-se em psiquiatria, antes de partir para a vida de aventureiro. Essa formação deu-lhe outra visão dos desafios. "Não quero bater recordes apenas por prazer", afirma. "Meu objetivo é motivar as pessoas, estimulá-las a correr atrás de seus sonhos, por mais impossíveis que pareçam."

E parecia impossível mesmo o que ele decidiu fazer: uma volta ao mundo sem escalas num balão. Balonistas do mundo já haviam empreendido 23 tentativas frustradas até março de 1999, quando Bertrand e o inglês Brian Jones subiram a bordo do Breitling Orbiter 3. Em 19 dias, 21 horas e 55 minutos eles percorreram 45.755 quilômetros e pousaram suavemente no deserto egípcio. Bertrand havia realizado a primeira circunavegação aérea non-stop, além de bater os recordes mundiais de distância e tempo de vôo. "O sentimento na chegada era indescritível, pois em muitos momentos pensamos que iríamos cair", conta Bertrand. Não é exagero: ao tocar no solo, restavam nos tanques de propano menos de 1% do que tinham no começo da viagem. Alguns minutos de vôo a mais e o balão ficaria totalmente sem controle de altitude, podendo cair no mar, na selva, num despenhadeiro ou em qualquer lugar de pouso perigoso.

Modesto, Bertrand Piccard não se acha um gênio e atribui o sucesso ao destino. "A vida é parecida com uma viagem de balão", filosofa. "Não temos controle sobre o rumo, mas podemos elevar nosso nível, nossa altitude. É assim que descobrimos as correntes favoráveis, que nos levam ao lugar certo."




Surpresas familiares

Em 1956, aos 72 anos de idade, o físico e inventor Auguste Piccard (foto à direita) fez uma revelação no mínimo curiosa. Disse que a cápsula de balão que o levou à estratosfera para estudar os raios cósmicos foi desenhada, na verdade, para ser usada no oceano. "Foi um submarino que me levou para as alturas", declarou em seu livro "Terra, Céu e Mar" (Editora Oxford University Press, EUA, 1956). Esse é apenas um dos fatos curiosos na vida dessa família de cientistas aventureiros. Segundo o neto Bertrand, o sobrenome Piccard ficou tão associado a ciência e aventura que serviu até mesmo de inspiração aos idealizadores da série de televisão Star Trek,

A nova geração. Nela, a nave Enterprise é comandada pelo capitão Jean Luc Piccard. Jean, por sinal, é o nome do meio do pai de Bertrand, Jacques, autor do famoso mergulho abissal de 1960 no batiscafo Trieste (foto à esquerda). Jacques ainda conseguiu identificar peixes e outros seres vivos que só foram coletados para pesquisa 38 anos mais tarde. Piccard estabeleceu um recorde mundial de profundidade que vigora até hoje. Como na série de TV, ele foi "aonde nenhum homem jamais esteve".

Idealismo no sangue

Engana-se quem pensa que Bertrand Piccard é um simples aventureiro, alienado da realidade em que vivemos. Psiquiatra, 44 anos e pai de três filhas adolescentes, ele esteve no Brasil para divulgar a fundação "Winds of Hope" (Ventos da Esperança), que criou para auxiliar crianças atingidas pela guerra e pela fome. Idealista, ele não mede palavras para pregar a responsabilidade dos países ricos na ajuda aos pobres.


Médico balonista
Bertrand Piccard, psiquiatra e ambientalista

 

GALILEU: Qual é o seu próximo alvo?
Bertrand Piccard: Meu objetivo maior hoje é a fundação. Sinto que precisamos alertar as pessoas para coisas inadmissíveis que acontecem no mundo.

GALILEU: Como surgiu a idéia de lutar contra a pobreza na África?
Piccard: Foi logo que conseguimos completar a travessia. Eu estava muito feliz, mas de repente percebi que, ao realizar um sonho tão grande e complexo, eu havia sobrevoado milhares de pessoas cujo único sonho era conseguir um punhado de comida ou remédio. Esse foi o ponto da virada.

GALILEU: Como você vê o Brasil? Ele está nos planos de sua fundação?
Piccard: Não por enquanto. O Brasil tem muitos desafios, mas eles são mais fáceis de resolver. Vocês têm governo estável e uma estrutura invejável de produção industrial. Nós, da Suíça, compramos aviões brasileiros. O Brasil está em um estágio bem superior ao dos países africanos.

GALILEU: Assim como o amor pela aventura, o altruísmo é coisa de família?
Piccard: Sim. Meu pai criou uma das primeiras organizações ambientalistas do mundo. Minha família sempre teve essa preocupação com grandes questões.

GALILEU: Você quer que suas filhas sigam seus passos?
Piccard: Não as pressiono para que gostem de balonismo ou aventuras. A única coisa que quero é que tenham curiosidade pela vida, no amplo sentido do termo.

GALILEU: Como sua formação em psiquiatria ajuda nas aventuras?
Piccard: Ela me auxilia a lidar com a ansiedade, que é muito natural nesses desafios. Durante a volta ao mundo, recorri a um colega, via rádio, para fazer uma sessão de hipnose em mim mesmo. Foi num momento difícil, quando tudo indicava que fracassaríamos. Felizmente, eu estava errado.